23.12.09

A neve voltou e com ela todos os transtornos que só quem tem de vir trabalhar, obrigatoriamente, conhece. Conduzir é tarefa difícil e andar a pé não é melhor solução. Gostava era daqueles dias em que acordava debaixo de um pesado manto de cobertores de lã e sentia o ar frio no nariz. O cheiro da lenha a arder na lareira e das torradas que a minha avó fazia para mim aqueciam-me a alma. Os pingarelhos de gelo acumulavam-se nos ramos das árvores, nos telhados das casas. Tudo à volta era de um branco imaculado que deixava a aldeia inacessível. 

Gostava de quando o meu pai chegava e vinha brincar comigo na neve. Gostava daquele tempo em que a família se reunia à volta da lareira. O calor deixava-nos as faces avermelhadas mas não chegava às costas. Era bom. A minha avó ligava o forno e fazia os doces mais deliciosos do mundo. Tinha aprendido tudo em França, numa casa de um embaixador, em Paris. Falava muito desses tempos e de como Paris era lindo quando nevava.

Chamo-lhe mãe em vez de avó. Mãe Delfina. A minha avó paterna ficava enciumada apesar de compreender. Fazemos anos no mesmo mês e sempre vi nela um ideal de pessoa. Às vezes o meu pai diz que ela não era assim tão justa e tão boa quanto eu possa pensar. Para mim sempre foi. Um dos meus maiores medos é perdê-la para sempre. Sei que isso vai acontecer. Penso muitas vezes nela. Como hoje à noite. Quando estava assim frio ela sentava-se num banco à lareira, com um cobertor em cima das pernas. Quando o cobertor estivesse quente, enrolava-me nele e levava-me ao colo para a cama. O quarto era muito frio, mas ela fazia-me um "ninho" na cama que, ao fim de alguns minutos, se tornava muito confortável. 

Às vezes deixava-me ler um bocadinho. Não muito. Dizia que me fazia mal estar muito tempo a ler à noite. Mas quando me deixava ler um bocadinho, trazia-me também umas bolachinhas ou um doce. Era reconfortante. A minha avó sabia sempre quando estava triste. Adolescente, sempre cheia de crises, fugia para o quarto para chorar sozinha. Vinha atrás de mim e obrigava-me a abrir a porta. Abraçava-me sempre, mesmo quando não tinha razão. Ralhava comigo mas tinha sempre um carinho para me dar.

Hoje todas essas memórias se apagaram. Apagaram? Sei que ela fica feliz quando me vê mas está muitas vezes triste. Não se recorda de cozinhar. Não se recorda de praticamente nada. Ainda nos reconhece mas no seu olhar já só vejo um mar de tristeza. Nunca pensei que uma pessoa tão forte pudesse esquecer uma vida. Menos Paris. A cidade que ela mais amou. Talvez onde tenha sido mais feliz. Com apenas a quarta classe, aprendeu a ler e a escrever o francês correcto comprando e lendo jornais. Aprendeu a cozinhar com um livro de receitas francesas. Antes de ficar completamente doente começou a trocar palavras portuguesas por palavras francesas. Depois começou a confundir-se e quando contava uma história perdia o raciocínio e voltava ao início. Desvalorizamos. Pensamos que era do cansaço. Mais tarde começou a perder a noção do que era real e do que era invenção. Já não distinguia as notícias dos filmes e novelas. Deixou de ler. Deixou de escrever. Deixou de tomar a medicação de forma correcta. Deixou de cozinhar e de tratar dos animais. Um dia perdeu-se na floresta e foi a pé até outra aldeia. Alguém a reconheceu mas não soube explicar o que acontecera. Hoje depende de ajuda para se vestir, come sozinha com muitas dificuldades e só depois de lhe prepararem o prato. Passa as tardes num centro de dia. Não fala com os outros idosos e mesmo connosco tem dificuldades em exprimir o que quer que seja. E chora. 

Em casa parece-me que se tenta ignorar o problema, desvalorizando. Às vezes puxo por ela e tento dar-lhe todo o carinho. Retribuir o que ela me deu a mim. E só me dá vontade de chorar.

Um dia fui vê-la ao centro de dia.A minha mãe tinha-me pedido para ir pagar as contas do apoio domiciliário e da instituição onde ela fica durante a tarde. Pedi para vê-la. As pessoas eram muito simpáticas mas o ambiente era muito triste. Numa sala estavam cerca de dez idosos. Uns dormitavam, outros jogavam dominó e outros estavam ali assim, só, sentados. 

Quando me viu começou a rir-se muito alto e a chorar. Não sabia o que dizer. Ficou agitada. Mas feliz. Dei-lhe muitos beijos e carinhos. Custou-me a ir embora e quando cheguei ao carro chorei como uma criança. Porque jamais terei a capacidade ou a humanidade para lhe dar tudo o que ela me deu a mim. Porque me custa aceitar. Um dia vou perdê-la e não sei se vou recuperar porque hoje a dor de a ver assim já é muito grande,.

 

sinto-me:
publicado por Lacra às 11:39

q texto tão comovente! e q palavras tão sentidas...

bj de bom natal.feliz 2010!
galega a 23 de Dezembro de 2009 às 22:36

Obrigado amiga galega. Um Feliz Natal para ti e que 2010 seja melhor do que este ano que finda. Bjs e obrigado pela visita
Lacra a 23 de Dezembro de 2009 às 22:45

Este texto é de ir às lagrimas. Mto sentido. Bjo grande e tdo de bom sempre
Cláudia Oliveira a 24 de Dezembro de 2009 às 19:51

Beijinho enorme para ti e obrigado por tudo:)
Lacra a 26 de Dezembro de 2009 às 12:22

Querida Índia
É triste vermos as pessoas que amamos tornarem-se diferentes e degradarem-se dia a dia.
Infelizmente a vida é assim mesmo.
Resta-te a consolação do amor que deste à tua avò. Enquanto ela foi a
"Mãe Delfina" sentiu e viveu esse amor mútuo.
Foram felizes as duas.
Tenta ser feliz e mesmo assim acarinhá-la o mais que puderes.
BOM ANO
Bjs grandes e muita força
oquenuncavi a 9 de Janeiro de 2010 às 17:00

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