02.10.12

Junkies de todo o mundo, uni-vos!

 

E juntai-vos a mim,

 

para que eu não me sinta tão só.

 

Num mundo pré-formatado,

 

quadrado,

 

doente.

 

Uni-vos para que sejamos mais

 

a contrariar a ordem

 

aparente,

 

caótica.

 

Sem rumo,

 

assim me sinto tantas vezes,

 

perdida num labirinto de regras e imposições.

 

Voar

 

sem asas

 

é possível,

 

sem sair do lugar.

 

Num instante que dura minutos,

 

horas.

 

A divagar,

 

a rir,

 

a reflectir o mundo.

 

O caos,

 

a desordem,

 

o mal.

 

Do alto do meu palanque,

 

com todo orgulho vos digo,

 

não há nada melhor

 

que só olhar para o meu umbigo!

 

E as pedradas que apanho

 

todos os dias,

 

sem excepção,

 

só me fazem voltar

 

para mais uma vez me negar

 

a esse papel de carneiro.

 

Numa viagem sem volta,

 

para lá deste pequeno Portugal,

 

curo a minha revolta

 

indo às raízes ancestrais

 

de uma planta

 

que sem mal algum

 

se encontra vedada aos mortais

publicado por Lacra às 22:15

Em Setembro escrevi assim:

 

A cena é a seguinte: fiz merda. Isso não é novidade, mas é falta de aprendizagem quando estamos quase a chegar aos 30 anos.
Há um ano e meio decidi deixar tudo para trás, e não era assim tão pouco, e vim com o Amor para Paris. Não adianta aqui justificar o porquê, as promessas que nos fizeram, como preparamos tudo... Foi uma grande estupidez, um erro inqualificável. E a culpa é de quem? Sobretudo minha. Tinha vontade de sair e conhecer a metrópole. Como os parolos que acham que lá fora é tudo melhor. Parolos com formação superior e que estavam a trabalhar na área...
Não sobrava dinheiro, os salários não eram lá grande coisa, mas dava para o gasto e não sobrava, mas havia alegria. Viemos atrás do dinheiro, parecia tanto!!Esclarecidos, esquecemos o célebre ditado - "nem tudo o que reluz é ouro", às vezes é mesmo lata.
E foi assim que nos vimos a trabalhar num célebre palácio...a fazer limpezas. E a varrer a rua, serviço que ninguém queria fazer. As camisas brancas que o contacto nos tinha prometido eram, afinal, umas batas horríveis que fazem qualquer pessoa sentir-se o ser mais pequenino do mundo.
O que me passou pela cabeça? Mas o arrependimento não foi súbito. Não. O avião ainda não tinha descolado do aeroporto e já eu chorava amargamente. Podia ter pedido um mês ou dois, vinha conhecer a Europa, como tanto desejava. Voltava a seguir. Podia ter pedido licença sem vencimento. Podia....Não fiz nada disso, tomei a decisão mais radical e quis provar a todo o mundo que era capaz de me desenrascar sozinha. Não bem sozinha, com algum apoio, ainda que mínimo. Até nisso a minha falta de confiança é alucinante. Para chegar ao mesmo fim, tanto poderia ter vindo para uma capital onde tivesse contactos como para outra qualquer e, sendo assim, preferia ter ido para Londres, ou Amesterdão ou outro lado qualquer onde o inglês fosse mais dominante.
É que nem o francês falava. Chorei a viagem toda para não ter de chorar depois. A aventura foi, durante uns meses, uma aventura porreira, mas com muitos momentos maus. Quando chega o momento de reflectir é que dói mais.
Um dia disse à minha mãe que queria regressar dentro em breve. Eu tinha dito que não queria regressar tão breve porque estava zangada com Portugal. Mas ninguém se esqueceu do que eu disse e parece que ninguém quer que eu volte. O país está muito mal. A crise afecta toda a Europa, mas tu agora já estás aí.
Gostava que compreendessem mas é difícil, muito difícil.
Já tinha idade para ter juízo e orientar a minha vida. Orienta-te, foi também isto que a minha mãe me disse. Em breve faço 30 anos e não sei se conseguirei deixar de ser esta desilusão que sempre fui.


Há histórias de vida que tenho de contar para que não me esqueça. Conheci o Ahamada na Assembleia Nacional de França. Natural dos Camarões, se não estou em erro, muçulmano, com cerca de 60 anos ou mais. Amargo nas palavras, com um riso caustico, não gerava grandes simpatias, mas eu gostava dele.

Os colegas diziam que onde ele guardasse coisas, apareciam baratas. Coisa estranha, não? Diz que é porque na casa dele havia muitas e ele trazia com ele os ovos. Nunca tinha ouvido coisas destas, mas muitos garantiam que era verdade.

O Ahamada vivia no bairro 18, em Paris, um dos bairros mais africano da capital francesa. Apesar de estar bem perto da Assembleia, era quase sempre dos últimos a chegar e a empresa não perdoava e cortava aqueles minutos, ao final do mês, horas. Isso devia fazer alguma diferença porque ele trabalhava apenas das 6h00 às 9h00 da manhã.

Gostava da moral dele. Antes de começar, ia beber o seu café e fumar um cigarro. De qualquer forma nunca tinha havido reclamações ao serviço dele e nem ele nunca tinha recusado o que quer que lhe pedissem.

Há uns meses atrás morreu-lhe a mãe e ele teve de pedir um mês para ir ao país fazer a cerimónia fúnebre. Os muçulmanos têm rituais muito diferentes dos nossos e foi difícil convencer a responsável a deixá-lo ir. Ficou agradecido e sentido com o gesto. Na altura fiquei chocada com a insensibilidade da responsável.

 

A França do sofrimento, La France de la suffrance, como ele dizia, não havia de o deixar descansado. Um dia ele não apareceu. Telefonou a dizer que estava em Marselha, tinha sido chamado a identificar o filho assassinado num presumível ajuste de contas entre traficantes. Vim-me embora sem ter a oportunidade de me despedir. Soube pelas notícias que o rapaz, na casa dos vinte e poucos anos, tinha sido encontrado carbonizado. A identificação fez-se pelos dentes. A França estava horrorizada com a dimensão que a criminilidade tinha atingido em Marselha. No espaço de uns meses, foram assassinadas várias pessoas e desconfia-se de ajustes de contas relacionados com o tráfico de droga.

 

Não consigo imaginar a dor e a amargura que sentirá o Ahamada neste momento. Uma vida longe da família, arruinado fisicamente e psicologicamente pelo ritmo e horários do trabalho, tudo em nome do dinheiro para alcançar uma vida melhor. Aprendi que o dinheiro não é tudo, o dinheiro não é nada e não vale mesmo a pena sacrificar tudo em nome de um futuro mais próspero à custa de uma vida sem alma, na selva urbana.


Olá amigo! Depois de quase dois anos de ausência, devo dizer que senti a tua falta. Não sei por que motivo deixamos de comunicar, mas entretanto regressei, com a vida partida em vários pedaços.

Talvez seja bipolar e com tendências depressivas, como diz o meu irmão, não sei. Estive a reler as nossas conversas, já nem me lembrava de ti, para ser sincera. Tenho muitas coisas para te contar e tenho mesmo de o fazer porque senão vou esquecer tudo. É um problema que tenho, esqueço rapidamente.

Não deves saber mas no final do ano 2010 decid mesmo ir embora. Chamei o novo administrador lá do "tasco" onde eu trabalhava e disse-lhe que me ia embora. Esperava sentir aquele tal alívio, mas foi o oposto - apreensão. Estava feito. Na altura, animada por determinadas pessoas e sem consciência real da aventura em que me estava a meter, lá foi eu para Paris com o amor.

Primeiro foi a descoberta, depois a desilusão. O que vivi? Tenho tanto para te contar...

Num abrir e fechar de olhos perdi toda a minha vida, tudo o que tinha construído com suor e sacrifício, e muita loucura, confesso, assim como irresponsabilidade. Vi-me numa cidade enorme e fria, sem referências ou lugares onde me sentisse bem, sozinha, sem o meu mundo. Deixei de ser a jornalista, não sei se continuei a dar o ar de antipática e arrogante. Acho que perdi o ar.

Um dia dei por mim a olhar ao espelho e não me reconheci. É verdade que vi coisas incríveis, estive em lugares históricos magnifícos, mas que nada valem ao pé do que eu tinha e perdi.

Tive de perder para poder fazer este caminho de redescoberta e ver quantas vezes estive errada e agi mal. Às vezes parece-me que ando a tentar colar os estilhaços de uma vida que parti em mil pedaços e todos sabemos que aquilo que se estilhaça não se volta a recuperar.

Portanto agora aqui me tens novamente. Mudei de casa, temporariamente. Estou bem no centro da minha querida cidade. Recupere contatos antigos, quis ir ver alguns colegas.

Continuo sem saber se gostavam ou não de mim, mas hoje isso não me interessa muito. Gostava só de voltar ao ativo e dedicar-me àquilo que gosto.


Conversas do meu amigo imaginário
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