03.04.09

 Ontem lá fui à entrevista de emprego e não posso dizer que tenha corrido propriamente bem. A entrevista, para começar, não era entrevista mas sim uma sessão de testes de avaliação psicológica numa empresa de recursos humanos perto do Jornal de Notícias e perto da minha faculdade. Ainda estive para passar por lá a dar um olá, mas faltou-me a coragem, como sempre.

Como cheguei com uma hora de antecedência e não há um único café onde se possa fumar um cigarro descansadamente, não tive outro remédio senão palmilhar ali a Lapa, a Praça da República, a rua Gonçalo Cristóvão e a Trindade vezes sem fim, sentando-me aqui e ali a ler uma revista e aproveitando para matar o vício. A cidade pareceu-me deserta e não vi ali o meu Porto, mas antes uma cidade do norte desertificado, empobrecido e envelhecido.

Quando faltavam 20 minutos dirigi-me à tal empresa, subi e fiquei nas escadas à espera. Eis que começam então a chegar mais pessoas. A maioria mulheres, dois homens. Seriamos aí uns vinte, no total. Comecei logo a passar-me com o ar de predadores que eram lançados entre supostos “colegas” de formação. Sim, porque um dos requisitos era a licenciatura em Jornalismo ou Comunicação Social e ter menos de 30 anos, o que já elimina muitos possíveis candidatos de áreas como Marketing, Relações Públicas, entre outras.

Quando finalmente nos mandaram entrar, e devo dizer que os consultores eram super antipáticos, dividiram as pessoas em pequenos grupos e em diferentes salas. Primeiro entregaram um inquérito para preencher com o máximo de informação possível sobre a nossa formação profissional, experiências de trabalho, salário actual, salário desejado, motivos para apresentar a candidatura, hobbies e gostos pessoais, pessoas que pudessem dar referencias profissionais sobre a nossa pessoa... Enfim, a essa hora estava eu a pensar: “mas que raio, esta gente é mesmo chata, está tudo no currículo!”.

Habituada a escrever no computador, a única forma de conseguir fazer com que a escrita acompanhe o meu raciocínio, creio que deixei de fazer referências que seriam certamente importantes.

De seguida mais dois testes e começa então o fado. O primeiro teste nada mais era do que uma folha em branco com três triângulos de diferentes formas no cimo. A restante folha estava completa, de cima a baixo, com triângulos de várias formas, alguns idênticos aos da sequência apresentada no topo. O objectivo era riscar os triângulos idênticos aos da sequência do cimo da folha em cinco minutos. Claro que os três triângulos não apareciam em sequências, mas antes isoladamente e eu não consegui chegar sequer ao fundo da página.

O segundo teste era do mesmo género.  Apresentavam uma sequência com três quadrados e uma pinta em que a pinta se deslocava segundo uma lógica.

A missão era completar a sequência nas duas fases seguintes, por exemplo, no primeiro quadrado a pinta estava no canto superior esquerdo, no segundo estava no canto superior direito, no terceiro estava no canto inferior direito e nos dois seguintes estaria onde?

Esse nem era difícil. O problema é que a partir do terceiro exercício já não era apenas o ponto, era o ponto e uma linha e depois um ponto, uma linha e um círculo. Para além disso, ao longo do exercício a lógica aplicável variava, por exemplo, o ponto andava primeiro dois

lados, a seguir voltava atrás....Uma confusão medonha. Eram duas páginas para preencher em 10 minutos e eu nem a primeira finalizei....

O teste que veio de seguida era composto por uma bateria de frases incompletas e tínhamos que escolher o par de palavras adequado para a completar, exemplo: ....está para boi como bezerro está para...., hipótese a vitelo....bife; b. bife.....cordeiro; c. vitelo....cordeiro.

Este foi o único que eu consegui completar até ao fim. Mas os testes não tinham acabado! O seguinte foi responder a cerca de 120 questões relativas à nossa personalidade e aí, claro, tive de mentir....

Costuma ficar com raiva e ter vontade de partir tudo e praguejar? sim, muitas vezes; por vezes; raramente.

Raramente! Ora essa! Ainda só estava ali há meia hora e já tinha vontade de lhes pegar fogo, mas controladamente claro! Acha mais interessante a profissão de arquitecto, engenheiro civil, não sabe. Não sei, respondi eu, ora eu é que sei???!!! Para mim nenhuma delas é interessante!

Entretanto entregaram-nos duas folhas, já sem limite de tempo, para responder a questões como porque é que tinha concorrido àquele lugar; que perspectivas tinha de futuro caso me enquadrasse na empresa; dois ou três princípios que orientam a minha vida; e as principais

qualidades.  A meio fui chamada a uma salinha para me perguntarem qual a minha cor favorita de um conjunto de cores que me apresentavam e depois colocaram duas a duas para ir escolhendo. Deram-me foi um nó na cabeça!!! Acho que respondi tudo trocado, umas vezes disse que gostava mais do azul do que do laranja, outra vezes já gostava mais do

laranja...Enfim, depois já estava tão confusa que não disse nada de

jeito na prova escrita.

A última questão era sobre a organização da apresentação de um livro e os meios a utilizar para a realização do evento e esta foi mesmo a única que me pareceu lógica, razoável e adequada. Foi portanto a única a que respondi em condições. Posto isto acho que as minha chances de ser chamada para a entrevista são praticamente nulas. Mas também não estou muito preocupada com isso. O salário, segundo nos informaram, é de 900 euros base, o que é muito bom comparado com o que me pagam de base aqui (643,61 euros). Além

disso contempla seguro de saúde, cantina da empresa e prémio de produtividade anual correspondente, no mínimo, a 1 salário e meio.

O contrato é de seis meses+12 e passagem a efectivo.

O problema é que a Porto Editora ainda há dois anos atrás pedia um técnico de comunicação...

Ou seja, não sei até que ponto me interessa sequer pensar na possibilidade de alterar toda a minha vida para de seguida ficar sem nada a não ser uma grande confusão e um grande

problema.

Além do mais começo a chegar à conclusão que aquela gente perde tempo demais em filas de trânsito e nos trabalhos. Até podem ganhar mais e até podem ter tudo  mas que adianta se têm de sair de casa de madrugada e regressam à noite? Se tivesse possibilidade de ter

uma casinha próxima do centro ou do emprego e com transportes e todas as acessibilidades, era outra conversa....mas isso normalmente está reservado aos políticos/deputados/pivots de informação e jornalistas comprados/corruptos em geral, como se pode confirmar em Lisboa... Aqui sempre posso ir até ao monte mandar umas valentes car**** quando ando de mal com a vida e ter a certeza que não aparece um maluco para me roubar ou qualquer coisa do género (isso já começo a não ter bem a certeza, mas lá é pior). E pronto, foi isto. Agora se me chamarem, lá vou à segunda entrevista, mais que não seja para saber como é e se me

pode interessar ou não. 


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