02.10.12

Há histórias de vida que tenho de contar para que não me esqueça. Conheci o Ahamada na Assembleia Nacional de França. Natural dos Camarões, se não estou em erro, muçulmano, com cerca de 60 anos ou mais. Amargo nas palavras, com um riso caustico, não gerava grandes simpatias, mas eu gostava dele.

Os colegas diziam que onde ele guardasse coisas, apareciam baratas. Coisa estranha, não? Diz que é porque na casa dele havia muitas e ele trazia com ele os ovos. Nunca tinha ouvido coisas destas, mas muitos garantiam que era verdade.

O Ahamada vivia no bairro 18, em Paris, um dos bairros mais africano da capital francesa. Apesar de estar bem perto da Assembleia, era quase sempre dos últimos a chegar e a empresa não perdoava e cortava aqueles minutos, ao final do mês, horas. Isso devia fazer alguma diferença porque ele trabalhava apenas das 6h00 às 9h00 da manhã.

Gostava da moral dele. Antes de começar, ia beber o seu café e fumar um cigarro. De qualquer forma nunca tinha havido reclamações ao serviço dele e nem ele nunca tinha recusado o que quer que lhe pedissem.

Há uns meses atrás morreu-lhe a mãe e ele teve de pedir um mês para ir ao país fazer a cerimónia fúnebre. Os muçulmanos têm rituais muito diferentes dos nossos e foi difícil convencer a responsável a deixá-lo ir. Ficou agradecido e sentido com o gesto. Na altura fiquei chocada com a insensibilidade da responsável.

 

A França do sofrimento, La France de la suffrance, como ele dizia, não havia de o deixar descansado. Um dia ele não apareceu. Telefonou a dizer que estava em Marselha, tinha sido chamado a identificar o filho assassinado num presumível ajuste de contas entre traficantes. Vim-me embora sem ter a oportunidade de me despedir. Soube pelas notícias que o rapaz, na casa dos vinte e poucos anos, tinha sido encontrado carbonizado. A identificação fez-se pelos dentes. A França estava horrorizada com a dimensão que a criminilidade tinha atingido em Marselha. No espaço de uns meses, foram assassinadas várias pessoas e desconfia-se de ajustes de contas relacionados com o tráfico de droga.

 

Não consigo imaginar a dor e a amargura que sentirá o Ahamada neste momento. Uma vida longe da família, arruinado fisicamente e psicologicamente pelo ritmo e horários do trabalho, tudo em nome do dinheiro para alcançar uma vida melhor. Aprendi que o dinheiro não é tudo, o dinheiro não é nada e não vale mesmo a pena sacrificar tudo em nome de um futuro mais próspero à custa de uma vida sem alma, na selva urbana.


Conversas do meu amigo imaginário
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